Carta

Este poema não se propõe a ser regular

cerente, lógico, resolutivo.

Tu que, na calada da noite, choras

por desespero, por angústia,

este poema te fará morrer de chorar,

porque este é seu propósito.

 

Tu que filosofas a existência de Deus

morrerá mais longe da certeza,

porque a dúvida é a verdade dogmática de tudo.

 

Tu que deitas no caos

com uma mulher sem rosto: peitos pernas,

morrerás de amor, cego.

Este poema veio confundir,

este é seu propósito.

 

Senhores leitores

 

Atenção senhores leitores (se os houver), em breve estarei publicando mais poemas, estive um período sem internet.

Corpos


Abraço pelas costas
não sinto corpo algum
dois corpos se unem num
(imagens sobrepostas)

Acordo, durmo, sonho
te pego e perco e solto
depois que acordo e volto
não toco mais nem ponho

Dentro do sonho erótico
tento apalpar o seio
ele se parte ao meio
e queima meu nervo ótico

Eu não sei nem seu nome
que se perdeu no chão
e quando espalmo a mão
o corpo dela some
O verbo


Eu dispo o verbo
ele sangra nas bocas
um gosto acerbo

Eu me dispo também
diante do verbo
e de mais ninguém

O verbo inunda
minha alma inteira
de uma coisa imunda

Essa coisa poética
seria só poesia
se não fosse patética
O cego urbano

Não, vocês não podem quebrar meus óculos,
Já não bastam meus dentes quebrados,
A falta de um sorriso em minha boca.
Eu preciso ver o mundo, ler.

Você que esmurrou minha face
E quebrou meus óculos
E que agora eu não consigo identificar,
Você sabe o que fez comigo?

Tatear os móveis, os livros,
Chegar à varanda (eu tenho medo de cair
Aqui do quinto andar), eu não vejo nada.
Nem o mendigo que eu avistava na esquina
Todas as manhãs e tardes,
Nem a puta que eu olhava
Nas noites solitárias e úmidas.

Ouço apenas o burburinho das ruas,
Os carros pelos rios de asfalto.
Eu não sei se ainda há injustiça no meu país,
Se a puta é a mesma,
Se já não tem outra de quinze anos.
Palavra
Quero folhear a palavra livro
e dedilhar a palavra violão,
vou rasgar o dicionário
para ouvir o som das palavras.

Eu quero morrer afogado
na imensidão verbal da água,
me espantar com interjeições,
ver o peito pulsando (onomatopéia).

Morte sem sangue, com tinta azul,
golpe sem complô, mas bem escrito,
força apenas com cedilha
para não enforcar ninguém.

E é sobre a palavra mulher
que eu vou morrer de amor
que é maior que a mulher
e que as simpples quatro letras.
Intangível
"Há mais coisas entre o céu e a terra do que
sonha nossa vã filosofia" (Shakespeare)

A alma não cabe no corpo
concreto
A essência não cabe na coisa
objeto

A virtude extrapola a atitude
real
Há um cérebro fora da cabeça
disperso

Outro mundo também acontece
paralelo
Não vivo apenas para comer
feijão

Esta cidade não se resume
buzina
Não conheço meu lado de dentro
intangível


Alienação
Alienação
Ali
na
nação
Alienação
ação
na
nação
Aliena
Televisão
Televisão
Já me fizeram um buraco na cabeça
Já me atiraram de costelas na parede
Minhas olheiras já te causam sofrimento
E ao mesmo tempo tu me olhas com desprezo.

Isso porque meu grito pixa muito muro
Que a idiotice quer privar da tinta forte,
Eles têm medo que eu derrube o muro inteiro
E que a cidade se rebele e vá-se embora.

Um dia eu sei que eles me matam e me enterram,
Eles não gostam de poetas vagabundos
Porque lugar de marginal é na cadeia.

Se eles vierem com milícias bem armadas
Não vou fugir de morrer tão precocemente
Vou me atirar daqui com a corda no pescoço.



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